Ao bravo guerreiro anônimo, pré-assentado do Acampamento Nossa Senhora da Soledade, em são José do Passé, Bahia.
Meu irmão Caminheiro,
no seu árduo caminhar,
pensa consigo mesmo:
viagem dura e longa,
solo rude, poeira na face,
tórrido sol, pele adentro,
a noite é sombria,
frios cortantes ventos...
E a jornada continua,
precisa logo encontrar,
lugar clareira aberta,
seu corpo cansado deitar,
paus e lona nas costas,
agastado de carregar...
Estômago ardendo em fome,
boca seca, a sede saciar,
olhar perdido no horizonte,
terra, minha terra querida,
como irei te encontrar...
Não se permite o viajante,
volver os olhos ao passado,
amigo, você não sabe,
não percebe, nem imaginar,
o que sente o viandante,
em busca do sagrado lar...
Destino incerto,
em céu aberto,
caminha o homem
em busca do elo perdido,
coração desgarrado,
olhar sombrio,
coração partido...
Neste instante, desperta!
olhar de espanto exprime um grito:
companheiros, terra à vista!
terra prometida é conquista,
ela finalmente aqui está...
Nesta terra, dou o meu grito,
neste solo, só, eu fico,
aqui quero deitar e morrer,
mas antes, bem antes,
quero plantar a semente,
pois rica a terra, jaz latente,
para fruto acolher e crescer...
A hora é agora,
dê a terra ao seu dono,
não o relegue ao abandono
o que é prometido,
não se deve esquecer,
é tempo de uma nova aurora,
faça do presente o futuro agora,
não há mais tempo a perder...
Amigo, eu bem sei,
um dia você prometeu:
a terra, ao homem dar,
custasse o seu sangue,
custasse a sua vida,
custasse o que custar,
isso iria realizar...
Sou a voz que clama,
voz da sua consciência,
não da loucura,
nem da demência,
sou a voz da inocência,
que no íntimo jaz a certeza:
com todos devemos partilhar,
o pão, o agasalho, a terra,
a semente, a água bendita,
o amor da mulher mãe,
que o rebento afaga aflita,
faminto as suas mamas sugar...
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